Fui renovar o BI por volta das 14.30 de um dia de semana.
Ao chegar, coube-me a senha 478, que me informava haver pouco mais de cem pessoas à minha frente.
128, para dizer a verdade.
Nestas alturas, é verdade que podemos ir dar uma volta, tomar café, comer gelados. Mas sempre com a necessária prudência, pois nunca se sabe se 50 ou mais pessoas antes de nós sucumbiram ao desespero e às horas passadas em pé devido à insuficiência de lugares sentados, e decidiram abandonar o recinto. Aliás, até pode ter vindo alguém retirar 50 senhas seguidas, só para se divertir. Nunca se sabe.
E, de qualquer forma, os números iam avançando lenta mas persistentemente.
Eu tinha levado um livro, mas detesto ler em pé e, além disso, a diversidade do drama humano
(crianças pequenas lanchando ou furtando brinquedos uma às outras, senhoras que discutiam vida sentimental, pré-adolescentes ruidosos ostentando roupagem Floribela, jovens que tinham perdido os documentos todos, etc.) prejudicava-me a concentração.
A dada altura, aliás, o ritmo de progressão pareceu-me afectado de forma extremamente negativa. Eram quase quatro da tarde. E tive de prestar mais atenção à sala.
No balcão 47, o número 409, um senhor de meia-idade, de sandálias pesadas e calções brancos cheios de bolsos, argumentava com o funcionário que o estava a atender.
Eu própria fui chamada um pouco antes das cinco, podendo constatar que ainda que o funcionário do balcão 47 tivesse optado por tentar renovar os bilhetes de identidade de outras pessoas, o número 409 continuava por lá encostado, franzindo o sobrolho.
Com efeito, depois das cinco, quando finalmente saí, o 409 não parecia com intenções de arredar pé. Contudo, tanto quanto pude perceber, ainda não fizera reféns.
E os noticiários da noite não disseram nada.
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